A “CONCILIAÇÃO” ENTRE TRABALHO REMUNERADO E DOMÉSTICO NO COTIDIANO DAS MULHERES
Divisão sexual e racial do trabalho; Trabalho doméstico; Relações patriarcais de gênero, raça e classe;
As transformações no mundo do trabalho têm reforçado a separação e hierarquização entre o trabalho de homens e mulheres. Aos homens são destinados os espaços públicos de trabalho, enquanto às mulheres se reserva o âmbito privado, com participação nos espaços profissionais de forma muitas vezes precarizada. Nesse cenário, o trabalho doméstico é naturalizado e as responsabilidades essenciais à manutenção da vida humana recaem quase integralmente sobre as mulheres, impondo-lhes jornadas intensivas, extensivas e intermitentes. Com isso, decidimos problematizar: quais as repercussões da conciliação entre trabalho doméstico e trabalho profissional na vida das mulheres? Assim, definimos como objetivo geral: analisar as repercussões da “conciliação” entre trabalho doméstico e trabalho profissional na vida pessoal das mulheres. A partir disso, estabelecemos os seguintes objetivos específicos: apreender como as desigualdades patriarcais de gênero, raça e classe influenciam as condições de vida das mulheres trabalhadoras do bairro Belo Horizonte, em Mossoró-RN; identificar os principais desafios enfrentados pelas mulheres do bairro Belo Horizonte no processo de conciliação das duas esferas de trabalho; compreender como essa rotina afeta a qualidade de vida pessoal dessas mulheres. Optamos por uma abordagem de pesquisa qualitativa, que nos permite interpretar os dados de maneira mais aprofundada. Nos fundamentamos no materialismo histórico-dialético, pois nos orienta a ir além das explicações individualistas ou naturalizantes, compreendendo a sobrecarga feminina como resultado de um processo histórico de exploração, dominação e opressão. Realizamos pesquisa bibliográfica, pois consideramos ser indispensável fundnamtar a compreensão do tema-objeto, além de entrevistas semiestruturadas com cinco mulheres residentes no bairro Belo Horizonte, em Mossoró-RN, como principal instrumento de produção de dados. Para alcançar nossos objetivos, nos fundamentamos em duas categorias centrais: relações patriarcais de gênero, raça e classe e divisão sexual e racial do trabalho. O diálogo teórico foi estabelecido com autoras que são referência nesse campo de estudo, a exemplo de Hirata e Kergoat (2007), Hirata (2014), Kergoat (2009), Federici (2017; 2019), Cisne e Santos (2018), Queiroz e Diniz (2023) e Davis (2013), cujas contribuições permitem compreender o entrelaçamento entre opressões estruturais e as vivências concretas das mulheres trabalhadoras. A pesquisa evidencia que, mesmo com a inserção no mercado de trabalho, permanece para as mulheres a responsabilidade quase exclusiva pelo cuidado doméstico e as atividades nessa esfera, caracterizando uma “conciliação” marcada por sobrecarga física e mental. Os dados apontam que o acúmulo de tarefas intensivas e intermitentes impactam o cotidiano, a saúde física e emocional, a percepção de si e o tempo livre delas. Além disso, revelam que o trabalho doméstico, apesar de invisível e não remunerado, é central para a reprodução da força de trabalho e, consequentemente, para a manutenção do sistema capitalista. Dessa forma, a pesquisa contribui para visibilizar experiências historicamente naturalizadas e para questionar a falsa neutralidade do conceito de “conciliação”, apontando a necessidade de políticas e práticas sociais que promovam corresponsabilidade e valorização do trabalho feminino, ampliando a compreensão das desigualdades estruturais e suas repercussões na vida das mulheres.