“SE ACOSTUME A VER PRETA NO PODER”: escrevivências, narrativas e canções de Cabocla de Jurema e Dayanne Nunes
Música; Escrevivência; Feminismo Negro;
Esta pesquisa propõe uma análise crítica das produções musicais e das trajetórias de duas artistas negras mossoroenses, Cabocla de Jurema e Dayanne Nunes, utilizando a escrevivência (Evaristo, 2007) enquanto caligrafia da pesquisa. O objetivo central é compreender como suas composições operam como narrativas de si e de sua coletividade, articulando experiências de raça, gênero, classe, espiritualidade e afetividade. A investigação ancora-se em uma abordagem qualitativa, com inspiração (auto)biográfica à luz do Pensamento Negro Radical (Robinson, 2020) enquanto método de analise, considerando a música como um campo de produção de sentidos e saberes historicamente deslegitimados pela ciência hegemônica. A pesquisa se fundamenta em analise sensível das obras e trajetórias das interlocutoras, priorizando a relação entre texto, contexto e experiência vivida. A escolha por uma escrita que se aproxima da sensibilidade e da implicação da pesquisadora decorre do reconhecimento de que a neutralidade científica é um artifício político que historicamente silenciou vozes subalternizadas. Nesse sentido, a escrevivência é mobilizada não como método, mas como postura política, que reivindica a legitimidade do conhecimento produzido a partir da vivência. O percurso teórico envolveu extensa revisão de literatura, com ênfase nas contribuições de autoras como Patricia Hill Collins (2019), bell hooks (2021), Lélia Gonzalez (2020) e Denise Ferreira da Silva (2022). A análise dos dados revelou que as produções musicais das artistas não apenas tematizam questões como racismo, sexismo e violência, mas também afirmam modos de existência pautados pela ancestralidade, pelo amor, pela espiritualidade de matriz africana e pela reconstrução simbólica de si. A pesquisa também problematiza os limites das epistemologias tradicionais e das práticas acadêmicas convencionais, tensionando a centralidade da racionalidade eurocêntrica na produção do saber científico. Conclui-se que a música, enquanto tecnologia social e política, constitui-se como dispositivo de transformação, e de demonstração da maneira como as interlocutoras são e existem no mundo, contribuindo para a construção de novas narrativas sobre as mulheres negras e seus modos de existir no mundo.