O ROSTO DA FOME: mulheres e a insegurança alimentar e nutricional no Jornal Nacional
Insegurança Alimentar e Nutricional; Jornal Nacional; Mulheres;
Mundialmente, as mulheres são mais afetadas pela fome do que os homens, e no Brasil, essa desigualdade é ainda mais acentuada. Em períodos de crises no modo de produção capitalista, estas estatísticas tendem a se intensificar, e, por isso, durante a pandemia de covid-19 (2020-2022), quando a fome no Brasil atingiu mais de 30 milhões de pessoas, vimos o que Neri (2022) chamou de feminização da fome se intensificar, uma vez que, em 2021, a desigualdade de gênero na insegurança alimentar foi seis vezes maior do que a média global. Além disso, na realidade brasileira, a fome também evidencia as desigualdades de classe e raça. Em 2023, de acordo com o IBGE (2024), sete em cada dez famílias negras enfrentavam insegurança alimentar, e os lares chefiados por mulheres negras eram os mais afetados. Neste contexto, a fome é transformada em narrativas que são construídas e divulgadas nos diversos meios de comunicação, especialmente no audiovisual. Assim, no âmbito telejornalístico, as mulheres pobres e negras, por serem as mais impactadas pelos níveis críticos de insegurança alimentar e nutricional, acabam tendo uma maior participação em reportagens que abordam, direta ou indiretamente, a questão da fome. Partindo desse entendimento, esta pesquisa objetivou analisar como as mulheres que vivem em condições de insegurança alimentar e nutricional são retratadas no Jornal Nacional (JN), em particular, porque este ainda é considerado o maior telejornal do Brasil. Com vistas a alcançar esse objetivo, propusemo-nos a realizar um levantamento de matérias acerca da insegurança alimentar e nutricional produzidas pelo JN entre os anos de 2020-2022, a identificar como são construídas as narrativas jornalísticas sobre insegurança alimentar e nutricional e a compreender o significado da participação de mulheres na exibição das narrativas jornalísticas sobre insegurança alimentar e nutricional. Para tanto, recorremos a discussões subsidiadas em torno das categorias insegurança alimentar e nutricional, telejornalismo e mulheres, fundamentadas em autores como Siqueira (2013), Castro (2022), Gutmann (2014, 2021), Biroli e Miguel (2010; 2017), Biroli (2018), Federici (2017; 2019), entre outros. Esta pesquisa é de natureza qualitativa e dotamos o materialismo histórico-dialético como método de pesquisa, entendendo a fome como expressão agravante da questão social, inerente à organização econômica vigente. As matérias foram selecionadas a partir das manchetes de abertura do JN no período aqui delimitado, e analisadas mediante dois roteiros próprios. Entre os principais resultados, observou-se que o JN destacou a insegurança alimentar e nutricional em 19 reportagens, nas quais as principais entrevistadas foram mulheres negras e pobres, cujas realidades subsidiaram a construção das narrativas exibidas.