Violência e adiamentos: tecituras do amor em A palavra que resta, de Stenio Gardel
A palavra que resta; amor; violência; homoerotismo.
Este trabalho teve como objetivo analisar os obstáculos que atravancam a relação amorosa de Cícero e Raimundo, em A palavra que resta (2021), de Stênio Gardel. No romance, investigamos tanto os impedimentos externos, como a violência da homofobia familiar, quanto os internos, isto é, aqueles construídos pelos próprios amantes, a exemplo da carta enviada ao amado não alfabetizado e dos adiamentos da leitura após a alfabetização, compreendendo-os como instâncias que contribuem para impedir que o relacionamento amoroso vingue, distanciando os amantes de forma definitiva. A impossibilidade de leitura das “palavras que restam” e o seu adiamento, configura-se como núcleo central desses obstáculos, de modo que o sentimento amoroso se eterniza nas linhas nunca lidas e se perpetua na ausência, em consonância com a reflexão de Maria Aparecida da Costa (2015) acerca das relações amorosas nas narrativas ocidentais. Para fundamentar essa análise, apoiamo-nos nas teorias de Denis de Rougemont (1988), Platão (2003) e Octavio Paz (1994), acerca das figurações do amor ocidental; de Pierre Bourdieu (2003) e Odalia (1983), para a compreensão das violências; e de Carlos Barcelos (2006) e João Silvério Trevisan (2018), sobre a literatura homoerótica no Brasil. Observamos, portanto, que as temáticas que compõem a tessitura do amor na obra de Stênio Gardel proporcionam discussões potentes na literatura contemporânea brasileira, algumas das quais buscamos contemplar nesta pesquisa.