Apropriação e massificação da narrativa Alice no país das maravilhas
Alice no País das Maravilhas; Nonsense; Adaptação fílmica; Industria cultura; Capitalismo tardio.
Esta pesquisa investiga a relação entre nonsense, adaptação cinematográfica e indústria cultural a partir de uma leitura comparativa entre a narrativa literária Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, e sua adaptação cinematográfica homônima dirigida por Tim Burton em 2010. O nonsense é compreendido não apenas como procedimento estético ligado ao absurdo ou à fantasia, mas como uma forma narrativa que desorganiza a lógica do sentido, suspende a causalidade e expõe a arbitrariedade das convenções linguísticas e sociais. Essa instabilidade estrutural, longe de limitar a circulação da obra, contribui para sua recorrente apropriação pela indústria cinematográfica, ao oferecer um texto aberto a sucessivas releituras narrativas. Na obra literária de Carroll, o nonsense atua como princípio organizador da experiência narrativa, acompanhando o deslocamento da protagonista por um mundo regido por regras mutáveis e paradoxais, onde a linguagem perde sua função referencial estável e passa a funcionar por jogos, inversões e contradições. Essa lógica interna impede a fixação de sentidos e sustenta uma narrativa fragmentária, marcada pela ausência de progressão linear e pela recusa de resoluções finais. No processo de adaptação cinematográfica, esses mesmos elementos são reorganizados segundo uma lógica diferente do romance, pois o nonsense é preservado de forma seletiva, especialmente no plano imagético e visual, enquanto a narrativa tende a ser reestruturada por arcos de desenvolvimento, conflitos centralizados e desfechos familiares, compatíveis com o cinema de grande circulação. A adaptação, nesse contexto, não se limita à transposição de enredo ou personagens, mas envolve um processo de mediação entre a instabilidade do texto literário e as exigências de inteligibilidade, identificação e consumo próprias da indústria cultural. O nonsense, ao ser incorporado a esse circuito, não é eliminado, mas transformado em forma estética administrável, capaz de produzir estranhamento controlado e fascinação estética sem comprometer a fluidez narrativa. A análise organiza-se em torno dos eixos do enredo, da imagética e dos diálogos, observados comparativamente, de modo a examinar como o absurdo é reconfigurado e integrado aos mecanismos de padronização e massificação. Do ponto de vista teórico, a pesquisa dialoga com as reflexões sobre indústria cultural formuladas por Adorno e Horkheimer (1985), bem como com os aportes de Benjamin (2019), articulando-os aos estudos sobre adaptação cinematográfica em Stam (2008) e Lefevere (2007), às leituras do nonsense e do absurdo em Deleuze (2015) e às contribuições de Freud (2011) acerca da psicologia das massas. O corpus é constituído pela narrativa literária de Lewis Carroll e pela adaptação cinematográfica dirigida por Tim Burton, de 2010, buscando compreender como o nonsense, ao atravessar diferentes linguagens e regimes de produção cultural, é continuamente reconfigurado no interior das dinâmicas da cultura industrial.