O TEATRO É PARA TODAS E TODOS: O DIÁLOGO ENTRE CULTURA POPULAR E CRÍTICA SOCIAL NA PRODUÇÃO TEATRAL DE FEDERICO GARCÍA LORCA E HERMILO BORBA FILHO
Teatro popular; nacional-popular; crítica social; Federico García Lorca; Hermilo Borba Filho.
O presente estudo investiga, à luz da Literatura Comparada e dos Estudos Culturais, de que modo Federico García Lorca e Hermilo Borba Filho constroem um teatro popular voltado à crítica social e à valorização de expressões culturais historicamente marginalizadas. De forma específica, busca-se: i) analisar em que medida as produções teatrais de ambos os autores se aproximam ou se distanciam no que concerne ao teatro popular; ii) discutir a construção da experiência do teatro popular em suas obras, à luz da crítica especializada; iii) examinar, sob a perspectiva do nacional-popular, como esses dramaturgos incorporam e reelaboram elementos da cultura popular, evidenciando de que maneira tais procedimentos estruturam uma dramaturgia que articula expressão estética e crítica político-social. Parte-se da compreensão de que, nas obras de Lorca e Borba Filho, a relação entre cultura popular e crítica social se configura como um eixo central, por meio do qual se problematizam estruturas de poder e se promovem reflexões sobre a realidade sociocultural. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa e comparativa, organizando-se a partir das seguintes categorias de análise: i) elementos da cultura popular; ii) estratégias de crítica social; iii) construção estética; e iv) convergências e divergências entre as obras. No que se refere ao embasamento teórico, o estudo apoia-se em Anatol Rosenfeld (2008), para a reflexão sobre o teatro; em Luís Reis (2018), no que diz respeito ao teatro popular nordestino; e em Ruiz Ramón (1979) e Huerta Calvo (2008), no âmbito do teatro espanhol. A noção de nacional-popular é fundamentada em Gramsci (1986; 1999), Chaui (2021), Coutinho (1990) e Maciel (2010), enquanto as discussões sobre cultura popular dialogam com Ortiz (1986) e Bakhtin (1987). Como corpus, no caso de Federico García Lorca, são consideradas obras do teatro trágico, como Bodas de Sangue e Yerma, além de peças vinculadas ao teatro de bonecos, como El retablillo de Don Cristóbal, Amor de Don Perlimplín con Belisa en su jardín (1931) e La zapatera prodigiosa (1930). Para a análise comparativa, destacam-se A casa de Bernarda Alba (1936) e Mariana Pineda (1927), que abordam questões relacionadas a gênero, tradição e opressão social. No caso de Hermilo Borba Filho, analisam-se obras como O auto da mula do padre (1948), As moscas (1960), Electra no circo (1944) e A cabra cabriola (1948), além de peças do Teatro do Nordeste, como A donzela Joana (1966) e Sobrados e mocambos (1972), evidenciando a presença de elementos da cultura popular, estratégias de crítica social e procedimentos estéticos característicos. Os resultados indicam que as produções de Lorca e Borba Filho convergem ao conceber o teatro popular como um espaço privilegiado de expressão estética e de crítica social. Contudo, divergem em função de seus contextos histórico-culturais, de suas escolhas formais e das distintas formas de reelaboração do popular. Em ambas as trajetórias, o teatro configura-se como um espaço de resistência e diálogo, no qual a cultura popular não apenas é representada, mas atua como instrumento de crítica política e social. Observa-se, ainda, que suas dramaturgias tensionam hierarquias culturais, propondo uma arte acessível que confere visibilidade às experiências e ao imaginário coletivo de grupos marginalizados, como mulheres, ciganos, negros, pessoas escravizadas e classes populares. Dessa forma, o estudo reafirma que o teatro, ao articular o estético e o social, consolida-se como um campo de mediação crítica e de democratização cultural, evidenciando que o teatro é, fundamentalmente, para todos.