A JORNADA DE TRABALHO COMO ARQUIVO E DISPUTA: UMA ANÁLISE ARQUEOGENEALÓGICA DA ESCALA 6X1 NO DISCURSO POLÍTICO
Formação discursiva; arqueogenealogia; biopoder; necropoder
Esta dissertação investiga como a escala 6x1 se constitui, no discurso político contemporâneo, como objeto de saber, disputa e intervenção, problematizando por que determinados enunciados sobre jornada, produtividade, descanso, economia, trabalhador e direito ao tempo emergem nos discursos de Erika Hilton e Nikolas Ferreira, e não outros em seu lugar. O objetivo geral é analisar, à luz dos Estudos Discursivos Foucaultianos, o funcionamento arqueogenealógico das formações discursivas materializadas nesses enunciados, descrevendo regras de formação, posições de sujeito, regimes de verdade e relações de poder que constituem a jornada de trabalho como objeto político. A pesquisa adota o método arqueogenealógico de Michel Foucault, articulando a arqueologia, com as categorias de formação discursiva, enunciado, função enunciativa, a priori histórico e arquivo, à genealogia do poder, mediante dispositivo, governamentalidade, biopoder e biopolítica, em diálogo com o necropoder de Achille Mbembe. O corpus principal reúne duas materialidades discursivas: o pronunciamento de Nikolas Ferreira, originalmente publicado no Instagram e coletado em reprodução do canal Billionaire Black, no YouTube, e a Proposta de Emenda à Constituição nº 8/2025, vinculada a Erika Hilton. Como base histórica e documental, mobilizaram-se Marx (2023), Gorender (2016), Prado Júnior (2021), Gomes (2019) e Malheiro (1866), além de legislação, documentos institucionais e decisões jurídicas referentes à formação da jornada no Brasil. Metodologicamente, o percurso histórico foi tratado como base de inteligibilidade do presente, e não como genealogia linear da escala: as fontes foram cotejadas segundo suas condições de produção, estatuto documental e pertinência ao objeto, preservando as descontinuidades entre escravidão, trabalho assalariado e regulação republicana, sem estabelecer equivalência entre o cativeiro e a experiência contemporânea da jornada brasileira. O tratamento dos dados consistiu na descrição das regularidades, dispersões, objetos, modalidades enunciativas, conceitos, estratégias, posições de sujeito e campos associados, seguida da problematização das relações de poder que atravessam essas formações. Os resultados preliminares mostram que a jornada não se apresenta como duração natural, mas como construção histórica submetida a apropriação, regulamentação, cálculo e conflito. A análise arqueológica identificou duas formações discursivas em confronto: a do tempo laboral como direito social, predominante na PEC, na qual a redução da jornada se relaciona a saúde, dignidade, família, produtividade e proteção estatal; e a do tempo laboral como cálculo econômico, predominante no discurso de Ferreira, na qual a exaustão da escala é reconhecida, mas sua alteração é subordinada a custos, emprego, inflação, produtividade, tributação e capacidade empresarial. Ambas mobilizam trabalhador, produtividade, economia e descanso, porém os inserem em redes de correlação distintas e produzem regimes de verdade concorrentes. A reconstrução histórica demonstrou que a regulamentação da jornada não seguiu evolução linear, mas resultou de rupturas, rearticulações e disputas entre proteção, disciplina, flexibilidade e continuidade produtiva. Conclui-se que a escala 6x1 funciona, no corpus, como ponto de condensação de diferentes racionalidades sobre o governo do tempo e da vida trabalhadora: a controvérsia não se limita ao número de dias trabalhados, mas disputa quem pode definir os limites da disponibilidade laboral, quais saberes legitimam essa definição e que formas de vida são protegidas, administradas ou expostas ao desgaste.