DA ÁGORA AO MANICÔMIO: A RELEITURA DO MITO E A LOUCURA EM ELECTRA NO CIRCO, DE HERMILO BORBA FILHO
Electra no Circo. Hermilo Borba Filho. Mito trágico. Loucura. Literatura Comparada.
A presente pesquisa analisa a releitura do mito grego trágico e a representação da loucura na peça Electra no Circo, de Hermilo Borba Filho, investigando a forma como a obra desloca o mito clássico de Electra para o ambiente circense nordestino e articula a loucura como parte pertencente à condição do sujeito na modernidade. Isso dito, o presente trabalho se organiza em três eixos: o primeiro traça um percurso histórico e teórico do teatro ocidental, desde suas origens ritualísticas gregas até as reconfigurações do drama moderno e suas manifestações estéticas no Brasil, culminando na produção de Hermilo Borba Filho; o segundo compara as personagens Electra, de Sófocles e de Eurípides, com a Moça do Arame, de Borba Filho, evidenciando permanências, rupturas e ressignificações do mito; o terceiro investiga a loucura como elemento dramático e existencial por meio da personagem Rapaz do Trapézio, no terceiro ato da peça, por meio de leitura comparativa entre o julgamento de Orestes na Eumênides, de Ésquilo, e o julgamento projetado na mente fragmentada da personagem hermiliana. Como aporte teórico, empregam-se, principalmente, as ideias de Aristóteles (384-322 a.C.), Nietzsche (1992), Rosenfeld (1985) e Szondi (2001) para a discussão sobre a tragédia, trágico e drama moderno; Genette (2010) e Kristeva (2005) discorrendo, respectivamente, sobre hipotexto, hipertexto e intertextualidade; e Foucault (1978) e Freud (1996) para uma compreensão filosófica, histórica e psicanalítica acerca da loucura. Partindo de toda essa discussão, entende-se que Hermilo Borba Filho não abandona, mas reconfigura os elementos estruturantes do teatro trágico grego, articulação com a herança clássica, a crise do drama moderno e a cultura popular nordestina, em que a Moça do Arame sintetiza o lamento inconformado da Electra sofocliana e a determinação racional da euripidiana em chave circense e popular; e o Rapaz do Trapézio demonstra como a obra hermiliana substitui a absolvição divina pelo enclausuramento institucional do executor do ato vingativo, mostrando uma reflexão que, na modernidade, a vingança deixa de ser restauradora e revela os limites da justiça humana, expondo o preço que a subjetividade paga por aquilo que a tradição clássica nomeia como destino.