O fantástico e a crítica social no contexto da ditadura no brasil: um estudo de três contos
Alegoria. Conto fantástico contemporâneo. Literatura e sociedade.
O reconhecimento da indissociável relação entre o literário e o social ocupa lugar de relevo nos estudos literários, uma concepção amplamente defendida por Antonio Candido em sua obra Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária, publicada em 1965. A valorização desse pensamento remonta à tradição literária que dominou a reflexão teórica desde sua origem, acolhendo a ilusão da verdade como a base da arte mimética, tal como argumenta Aristóteles em sua Poética, a tese inaugural sobre o assunto. Nesta linha de reflexão, tomando como referência norteadora a noção de que a representação do real encontra-se intimamente ligada aos aspectos culturais e que o fantástico se constitui no jogo entre o natural e o sobrenatural, entre o real e o seu duplo, este trabalho tem como objetivo analisar três contos fantásticos publicados durante o regime militar brasileiro, a saber: “O galo impertinente” (1967) de José J. Veiga, “Os cavalos brancos de Napoleão” (1970) de Caio Fernando Abreu e “O homem que viu o lagarto comer seu filho” (1976) de Ignácio de Loyola Brandão. Nos contos em questão, defendemos a hipótese de que imagens insólitas sustentam um enquadramento figurativo caracterizado por alegorias que nos remetem à ditadura militar brasileira. Na abordagem das obras literárias, observamos que a problemática da ditadura se funde com o fantástico, estreitando o movimento entre o ordinário e o extraordinário que sustenta as histórias narradas. Para tanto, tomamos como referências norteadoras os postulados teóricos de Todorov (2017), Ceserani (2006), Roas (2001;2011;2014), Bessière (2001; 2009), Rodero (2006) e Cecilia (2016) sobre o fantástico, o pensamento de Dalcastagnè (2001; 2022) sobre a literatura brasileira contemporânea, bem como os estudos de Fausto (2006) sobre o regime militar. Acrescente-se, ainda, que consideramos relevantes as reflexões de Grawunder (1996) e Hansen (2006) em torno do conceito de alegoria. Por fim, defendemos que as três narrativas selecionadas constituem uma amostra significativa sobre o contexto de suas produções, propiciando importantes reflexões sobre o conto brasileiro produzido no período pós-64.