ENSINO DE GEOGRAFIA NA ESCOLA PÚBLICA: a pesquisa como príncipio educativo contexto da prática.
Ensino de Geografia; escola pública; pesquisa como principio educativo.
A presente tese insere-se no campo do ensino de Geografia, mobilizando fundamentos do campo pós-crítico para problematizar a pesquisa como princípio educativo no contexto das práticas docentes desenvolvidas em três escolas públicas da rede estadual do Rio Grande do Norte. No âmbito metodológico primaremos pela compreensão dos contextos de aprendizagens vivenciados pelos professores e suas (re)interpretações, deslocamentos e recriações de sentidos acerca do ensinar Geografia no Ensino Médio, especialmente em um contexto de reformas educacionais que passam a sugerir “novas metodologias de pesquisa” como parte do currículo diversificado dessa etapa de ensino. A pesquisa desloca-se de perspectivas normativas e universalizantes sobre o ensino de geografia para compreensões contextuais imbuídas de materialidades culturais, políticas e institucionais diversas.Embora a noção de pesquisa como princípio educativo possua uma tradição consolidada nas contribuições de autores como Pedro Demo, Roque Moraes e Maria do Carmo Galiazzi, esta investigação busca tensionar tal perspectiva a partir de lentes descentradas, ancoradas especialmente nas contribuições de Stephen Ball, Jefferson Mainardes, Elizabeth Macedo e Alice Casimiro Lopes. Dessa forma, compreende-se que os sentidos atribuídos à pesquisa no ensino de Geografia não são fixos ou universais, mas produzidos em meio a disputas discursivas, traduções curriculares e recontextualizações que atravessam o cotidiano escolar. Corroboram com essa perspectiva autores do campo do ensino de Geografia que defendem uma educação geográfica contextual, reflexiva e voltada à percepção das múltiplas espacialidades no ensino que possibilitem a formação de sujeitos capazes de interpretar as dinâmicas socioespaciais contemporâneas, Cavalcanti (1998).O interesse pela temática emerge da nossa trajetória profissional na educação básica pública. Iniciamos nossa atuação docente em 2008, na Escola Estadual de Educação Profissional Elsa Maria Porto Costa Lima, no estado do Ceará. Desde o início da carreira docente buscamos desenvolver práticas pedagógicas fundamentadas na pesquisa como princípio educativo, compreendendo o ensino de Geografia como espaço de protagonismo discente, autoria, investigação e produção de conhecimento. Entre os anos de 2008 e 2013, desenvolvemos projetos interdisciplinares envolvendo estudantes e professores de diferentes áreas do conhecimento, com foco na construção de conceitos geográficos por meio da leitura, da escrita e da produção autoral. Em 2011, criamos o blog “Diário Virtual de Leitura”, hospedado na plataforma Blogger, com o objetivo de estimular a escrita discente através de artigos de opinião e diferentes produções textuais. Nesse percurso, utilizamos múltiplas metodologias vinculadas à educação geográfica, tais como produção de jornais escolares, interpretação de charges, gravação e edição de vídeos, produção de podcasts em web rádio, escrita de livros digitais e elaboração de artigos científicos apresentados em eventos acadêmicos. Essas experiências buscavam potencializar aprendizagens significativas e colaborativas, articulando ensino, pesquisa e autoria discente.Mesmo diante da ausência de condições estruturais favoráveis ao desenvolvimento da pesquisa na escola pública, como limitações financeiras e tecnológicas, procuramos possibilidades pedagógicas a partir dos recursos disponíveis, frequentemente utilizando equipamentos pessoais, internet móvel e investimentos próprios para garantir a participação dos estudantes em atividades científicas e acadêmicas.As experiências desenvolvidas evidenciaram que a pesquisa na educação básica possui potência transformadora, especialmente ao ampliar horizontes formativos, fortalecer a autonomia intelectual dos estudantes e favorecer processos de emancipação social. Ainda que essas experiências não alcancem a totalidade dos sujeitos escolares, seus impactos tornam-se significativos na trajetória dos envolvidos.Entre os anos de 2012 e 2018, desenvolvemos novos projetos de pesquisa na Escola Estadual Rui Barbosa, localizada no município de Tibau, no Rio Grande do Norte. As experiências vivenciadas nesse contexto conduziram, em 2016, ao ingresso no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, no Mestrado Profissional em Geografia. Na ocasião, desenvolvemos a pesquisa intitulada “Ensino de Geografia e experiência metodológica com a produção de livros digitais: é com um clique que se vira a página?”, que resultou na produção do livro digital “Expedições Geográficas pela cidade de Tibau-RN”, composto por 44 textos de autoria discente.A pesquisa, acima citada, contatou contribuições importantes para o processo de ensino-aprendizagem de Geografia, entre elas o fortalecimento da pesquisa, a promoção da autoria estudantil, aprendizagem colaborativa, reflexão sobre conceitos geográficos e valorização das habilidades individuais, além da produção de material didático digital sem custos financeiros adicionais.Posteriormente, entre os anos de 2021 e 2023, desenvolvemos projetos de pesquisa e extensão em parceria com Maria José da Costa, vinculada ao Departamento de Geografia da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Os projetos contemplaram estudantes bolsistas de iniciação científica, culminando em premiações na Semana de Ciência e Tecnologia da universidade, além da produção e apresentação de artigos científicos.As experiências ao longo da trajetória docente e acadêmica reforçam a compreensão de que a pesquisa, quando inserida no cotidiano da escola pública, produz deslocamentos significativos nos modos de ensinar e aprender Geografia. Nesse sentido, a presente tese busca compreender como a pesquisa como princípio educativo é produzida, negociada e significada nas práticas docentes, considerando as tensões curriculares, institucionais e políticas que atravessam o ensino de Geografia na educação básica.Dessa forma, esta investigação apresenta relevância teórica, metodológica e social ao problematizar os sentidos atribuídos à pesquisa e ao ensino de Geografia em contextos escolares públicos, contribuindo para o fortalecimento de debates acerca da formação docente, das políticas curriculares e das possibilidades de construção de práticas pedagógicas mais investigativas, autorais e contextualizadas. O itinerário metodológico da pesquisa fundamenta-se em uma perspectiva qualitativa de inspiração descentrada, compreendendo a investigação como processo interpretativo perpassada por compreensões contextuais plurais e dinâmicas. Embora a metodologia estabeleça pontos de partida para o desenvolvimento do estudo, os aspectos teóricos-metodológicos entrelaçam-se ao longo de toda a tese, reconhecendo a pesquisa como movimento contínuo de problematização e produção de sentidos.A escolha do estado do Rio Grande do Norte como recorte territorial justifica-se inicialmente pela nossa trajetória de atuação docente nos últimos anos em que participamos de pesquisas no contexto escolar, como professora da rede estadual como também coordenadora pedagógica de escola de ensino fundamental e médio em tempo Integral da rede estadual. A partir dessas vivências nos interessamos em compreender as dinâmicas do ensino de Geografia na escola pública nesse território e os contextos de escolas em diferentes municípios da rede pública. Chama-nos a atenção, como pesquisadora na área de ensino de geografia, que a Universidade Federal do Semiárido-UFERSA em parceria com a Secretaria de Educação do Estado do Rio Grande do Norte, possui um programa denominado Ciência para Todos no Semiárido Potiguar que objetiva popularizar e estimular o interesse pela ciência entre professores e estudantes da educação básica em áreas remotas. Os dados e a adesão das escolas ao programa é expressivo em termos de projetos escolares inscritos e credenciados para etapas externas, em feiras cientificas importantes tais como a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (FEBRACE) que é um programa que estimula a cultura cientifica, o saber investigativo, a inovação e o empreendedorismo em jovens e educadores da educação básica e técnica do Brasil.