TRABALHADORAS DOMÉSTICAS NA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA: DAS FISSURAS DA BRANQUITUDE ECOAM VOZES INSURGENTES
Trabalhadora doméstica. Branquitude. Literatura.
A presente pesquisa investiga a representação das trabalhadoras domésticas na literatura brasileira contemporânea, por meio da análise de obras de Lilia Guerra, Eliana Alves Cruz, Eliane Marques, Leandro Assis e Triscila Oliveira. O estudo explora as intersecções de raça, gênero e classe que atravessam essa ocupação, contextualizando o lugar da empregada doméstica na produção literária do século XX para, então, mapear os textos do século XXI que a reposicionam. Busca-se compreender de que modo essas trabalhadoras são representadas na literatura recente, partindo da hipótese de que, a partir dos anos 2000, emergem contranarrativas que resistem aos estereótipos. O trabalho doméstico é historicamente marcado pelo gênero, mas a dimensão racial aprofunda o controle e a exploração do corpo da mulher negra, que é relegada a posições subalternizadas e precárias — resultado da articulação entre a divisão sexual e a divisão racial do trabalho. Nessa perspectiva, o labor doméstico, quando exercido por uma empregada, carrega uma dimensão racial inafastável. A análise fundamenta-se nos estudos sobre a branquitude e nas contribuições da crítica feminista negra e decolonial para a compreensão da figura da empregada doméstica. Destacam-se, nesse percurso, as reflexões de Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Françoise Vergès, Patricia Hill Collins, Cida Bento e Charles Mills. Já a noção de fabulação crítica, proposta por Saidiya Hartman, oferece suporte para a reconstrução das subjetividades silenciadas ao longo da história. A pesquisa adota abordagem qualitativa, de natureza explicativa e com método bibliográfico, realizando o mapeamento de obras publicadas a partir dos anos 2000. As conclusões indicam que, embora a literatura ainda seja um campo dominado pela branquitude, novas vozes vêm emergindo e remodelando a figura da empregada doméstica, dotando-a de subjetividade e autonomia narrativa. Por fim, sublinha-se a importância de representações plurais, que ampliam os horizontes da literatura ao possibilitar ao leitor o contato com outras perspectivas e visões de mundo.