DA FLORESTA ATE O MAR: COSMOPOLÍTICA NAS NARRATIVAS ANÍMICAS DE MARIA DA LIBERDADE NOS HINÁRIOS DE JARDIM DE PRIMOZIA E ENCANTADOS DA NATUREZA
Santo Daime. Maria da Liberdade. Animismo. Cosmopolítica. Etnografia do Particular
Esta pesquisa, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais e Humanas da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), investiga as intersecções entre espiritualidade, natureza e conhecimento na trajetória de Maria da Liberdade, liderança do Santo Daime no Nordeste. O objetivo central é compreender o animismo e a cosmopolítica presentes nos hinários Jardim de Primozia e Encantados da Natureza, identificando seus habitats noológicos e a dimensão terapêutica dessas narrativas. Fundamentado no pensamento complexo de Edgar Morin, o estudo utiliza o conceito de "lugares noológicos" para descrever o espaço simbólico de organização de crenças e mitos. A metodologia adota a "etnografia do particular" de Lila Abu-Lughod, priorizando experiências situadas para evitar generalizações culturais, e a cartografia de Baitello e Oliveira, que valoriza a corporeidade e a escrita como experiência vivida. O trabalho é estruturado em capítulos no formato de cartas, refletindo o processo de "ancoragem" da pesquisadora, que inclui um relato etnográfico da travessia fluvial até a Vila Céu do Mapiá, na floresta amazônica. A análise demonstra que os hinos, entendidos como "recebimentos espirituais", possuem um estatuto ontológico próprio e funcionam como portadores da memória coletiva e da cosmologia daimista. Dialogando com Isabelle Stengers e Donna Haraway, a pesquisa propõe uma visão cosmopolítica onde a floresta e o mar não são apenas cenários, mas agentes ativos em uma rede de relações multiespécie. Conclui-se que a narrativa de Maria da Liberdade opera uma "ciência do concreto", subvertendo a dicotomia moderna entre humanidade e natureza ao integrar agências humanas e não humanas (como os "Encantados") em um ecossistema de cura, proteção e saber ancestral.