EDUCAÇÃO E INFÂNCIA DO/NO CAMPO: ENTRE A COLONIALIDADE E A DECOLONIALIDADE
Educação do campo; Infâncias do campo; Decolonialidade; Práticas pedagógicas.
Esta pesquisa nasce do reconhecimento das infâncias do campo como experiências plurais,
históricas cuja existência está intrinsecamente ligada ao ambiente cultural e comunitário em
que se desenvolve, no entanto, atravessadas por relações de poder que, historicamente,
obscureceram seus modos de vida. Ao longo da história a educação para as pessoas do campo
tem sido caracterizada por disparidades estruturais, seguindo uma lógica centrada no urbano
e perpetuando a colonialidade do poder, por Aníbal Quijano (2007). Quando a educação não
concilia o mundo cultural das crianças com as práticas que as formam, elas se tornam
estrangeiras de sua própria cultura, como aponta Freire (1981). Para tanto, o objetivo geral
desta pesquisa é: compreender como tem se configurado a educação para as crianças que
vivem em contexto de campo no município de Angicos, estado do Rio Grande do Norte,
tendo como foco as práticas pedagógicas desenvolvidas nas instituições escolares do/no
campo e sua relação com os modos de vida, saberes e culturas campesinas, buscando refletir
se essas práticas se alinham – ou não – com os princípios da Educação do Campo e com a
visão decolonial. Para buscar respostas, a pesquisa analisou documentos e políticas
educacionais. Foi possível ainda investigar as práticas pedagógicas desenvolvidas por meio
de observação e entrevistas participantes com crianças e professores das escolas no campo.
Identificar possíveis demonstrações da colonialidade no ambiente escolar e decolonialidade;
discutir os fundamentos históricos da Educação do Campo com base em Maldonado-Torres
(2007), Quijano (2007), Prado Júnior (1961), Petty, Tomb e Veras (1981) e Prado (1995); e
as ideias sobre a infância nesse contexto apoiamo-nos em Sarmento (2007), Vigotski (2005),
Ubarana e Lopes (2012) e Dalberg, Moss e Pence (2003); sugerir a pesquisa ativista como
um caminho de conhecimento e método, numa pesquisa qualitativa que busca não só
entender a realidade, mas também transformá-la, seguimos por D’Souza (2010), Bogdan e
Biklen (1994), Minayo (2016), Freire (1987), Ludke e André (1986). A pesquisa ancora-se
na Perspectiva Sócio-Histórica das Ciências Humanas nas contribuições de Freire (1981),
que defendem uma educação que reconheça o mundo cultural dos sujeitos e se comprometa
com sua humanização. Nessa direção, a escrita acadêmica entrelaça também as vivências e
memórias da pesquisadora, compreendidas como parte da construção do conhecimento,
conforme apontam Freire (1989) e Bogdan e Biklen (1994). Como resultado, a pesquisa
demonstrou que, nas instituições educacionais analisadas, a decolonialidade não está
completamente ausente, mas se apresenta de maneira desigual, fragmentada e sob pressão,
ainda prevalecendo a lógica colonial. Apesar de existirem ações pedagógicas que buscam
valorizar a cultura das crianças, essas ações ainda dependem em grande parte do esforço
individual dos professores e não se solidificam como um projeto institucional. As
dificuldades estruturais, a homogeneização dos currículos e a implementação deficiente das
políticas públicas reforçam a condição de escolas localizadas no campo, mas que não são
exatamente escolas DO campo.