O fracasso do fracasso: niilismo e desesperança em Timequake, de Kurt Vonnegut
Kurt Vonnegut; Timequake; Niilismo e desesperança; Forma narrativa.
O presente trabalho investigou as articulações entre a forma narrativa e os temas do niilismo e da desesperança no romance Timequake (1997), obra que encerra a trajetória literária de Kurt Vonnegut. A pesquisa partiu do pressuposto de que as transformações socioculturais do pós-guerra e a crise das metanarrativas produziram um cenário de ceticismo que Vonnegut traduz em uma estética da fragmentação e do absurdo. O principal objetivo foi analisar como a forma narrativa, caracterizada pela quebra da linearidade temporal e pela autorreferencialidade, funciona como uma metáfora da paralisia existencial e do esvaziamento de sentido. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa baseada na crítica imanente e no método dedutivo interpretativo. As ferramentas metodológicas incluíram pesquisa bibliográfica e close reading, privilegiando a análise dos elementos externos e internos da obra em diálogo com um arcabouço teórico que articula a estética de Theodor Adorno (2003) sobre a falência do narrador tradicional, os conceitos de narratologia de Gérard Genette (2017), as contribuições de Anna Faedrich (2022) acerca da autoficção, o existencialismo de Sartre (2003; 2010) e Camus (2006) sobre a liberdade e o absurdo, a hermenêutica de Paul Ricoeur (2010) sobre a temporalidade narrativa, e as percepções de Mark Currie (2006) sobre o determinismo temporal. A análise demonstrou que a voz narrativa em Timequake opera de maneira híbrida e autoficcional, expondo as costuras da ficção e assumindo a impossibilidade de organizar o caos do mundo em uma estrutura linear coesa. No que tange à temporalidade, observou-se que o colapso da cronologia e a imposição da repetição anulam a agência dos personagens, convertendo o tempo em uma estrutura de fatalismo que mimetiza a perda do livre-arbítrio. Concluiu-se, assim, que a estrutura fragmentada e a natureza cíclica do tremor de tempo não operam apenas como recursos estéticos, mas como a própria materialização formal da crise de sentido e da aporia do tempo vivido.