CARTAS PARA ALÉM DOS MUROS DAS ESCOLAS: DOCÊNCIA QUEER COMO ESTÉTICA DA EXISTÊNCIA
Docência queer; narrativas (auto)biográficas; estética da existência; cartografia; sexualidades dissidentes.
Esta dissertação não surge de um vazio, mas de um campo atravessado por vozes trêmulas que insistem em existir. O estudo tem como objetivo geral cartografar os currículos e pedagogias forjados no encontro com histórias de vida de professores/as em dissidência de gênero e sexualidade, evidenciando quais são as linhas que constituem as docências desses/as professores/as. A investigação orienta-se pela seguinte questão norteadora: as trajetórias de vida de professores/as em dissidência de gênero e sexualidade possibilitam práticas pedagógicas acolhedoras nos espaços escolares da educação básica pública? Essa indagação nasce como um esperançar de vidas dissidentes que, ao se afirmarem docentes, produzem novas formas de existir e de ensinar. Ancorada nas teorias pós-críticas em educação, a pesquisa articula os conceitos foucaultianos de estética de si e amizade, as noções de performatividade e precariedade em Judith Butler, as discussões sobre currículo em Marlucy Paraíso, as geografias de vida em Evanilson Gurgel e Marlécio Maknamara e os Estudos Culturais em Tomaz Tadeu da Silva. Metodologicamente, propõe-se uma abordagem cartográfica inspirada em Gilles Deleuze e Félix Guattari, a partir da produção de narrativas (auto)biográficas com os/as docentes participantes por meio de entrevistas narrativas fundamentadas em Sandra Jovchelovitch e Martin Bauer (2008). Tal dramaturgia metodológica busca mapear experiências formativas e processos de (re)invenção de si que emergem no cotidiano escolar. Os achados da pesquisa evidenciam que as experiências de professores/as em dissidência de gênero e sexualidade são atravessadas por processos de exclusão, silenciamento e vigilância desde a infância até o exercício da docência. As análises indicam, ainda, que essa docência desses/as educadores/as se constitui por meio de práticas pedagógicas acolhedoras, ancoradas em currículos mal-educados construídos a partir de pedagogias perturbadoras, de pedagogias da rasura e de pedagogias da amizade. Pedagogias que desafiam processos de normalização e ampliam os modos de reconhecimento da diferença, compondo aquilo que esta investigação compreende como uma Docência Queer. Uma ação professoral comprometida com a afirmação da vida, com a produção de encontros e com a invenção de outras formas de habitar a escola.