O ENSINO DE FILOSOFIA DIANTE DA DESINFORMAÇÃO: POSSIBILIDADES DE FORMAÇÃO DO PENSAMENTO CRÍTICO NO ENSINO MÉDIO
Filosofia; fake news; pós-verdade; desinformação; pensamento crítico.
Esta pesquisa investiga as possibilidades de contribuição do ensino de Filosofia para o enfrentamento das fake news e da pós-verdade entre estudantes do Ensino Médio, tomando como ponto de partida uma inquietação surgida no próprio cotidiano escolar. O estudo foi desenvolvido na Escola de Ensino Médio em Tempo Integral Manuel Sátiro, no município de Jaguaruana, Ceará, e buscou compreender como os estudantes se relacionam com as informações que circulam nas mídias digitais, quais critérios utilizam para avaliar sua veracidade e de que maneira fatores emocionais, afetivos e cognitivos interferem nesse processo. A fundamentação teórica articula as reflexões de Hannah Arendt sobre verdade factual, de Byung-Chul Han acerca das transformações produzidas pela digitalização e pelo regime informacional e de Alejandro Cerletti sobre o ensino de Filosofia como exercício do filosofar e da pergunta. Metodologicamente, a investigação possui abordagem qualitativa e foi desenvolvida como estudo de caso, recorrendo a questionários, observação, discussões em sala, análise de notícias e oficinas pedagógicas articulando Filosofia e Cultura Digital. Entre as atividades realizadas, os estudantes analisaram informações verdadeiras e falsas, discutiram critérios de confiabilidade e produziram autoralmente notícias utilizando recursos digitais, incluindo Canva e Gemini. Os resultados demonstraram que os participantes já possuíam estratégias de verificação, porém recorriam também à familiaridade com o conteúdo, à confiança em quem compartilhava e às próprias percepções como critérios de julgamento. Ao longo das intervenções, observaram-se mudanças na qualidade das justificativas e maior atenção à fonte, data, autoria, contexto e procedência das informações, além do reconhecimento da responsabilidade envolvida no compartilhamento. Não se verificou uma transformação homogênea entre os participantes, permanecendo dificuldades e critérios anteriormente utilizados. Concluímos que a Filosofia não funciona como instrumento técnico capaz de determinar, isoladamente, a veracidade de uma notícia, mas pode contribuir para interromper a aceitação imediata das informações, fortalecendo a pergunta, a busca por razões e a autonomia intelectual. Em articulação com a Cultura Digital, o ensino filosófico apresenta-se, assim, como uma possibilidade formativa diante dos desafios contemporâneos da desinformação.