A COR DO AFETO: ESCREVIVÊNCIAS E CORPO-TELA DE GRACE PASSÔ EM TEMPORADA (2018) E O DIA QUE TE CONHECI (2023)
Grace Passô; Temporada; O dia que te conheci; Afeto Comunitário; Cinema Negro
A presente pesquisa busca compreender a dimensão do afeto negro no cinema brasileiro a partir
da atuação de Grace Passô em Temporada (2018) e O dia que te conheci (2023). Ambas as
obras são dirigidas e roteirizadas por André Novais de Oliveira, um dos fundadores da
produtora Filmes de Plástico. Verificamos nessas ficções a presença de um sentido de afeto
comunitário que torna a vivência periférica de Juliana e Luísa, personagens analisadas neste
trabalho, toleráveis e possíveis. Os dois longas-metragens assinalam a existência de uma
produção contemporânea de realizadores/as brasileiros/as que articulam subjetividade,
memória e ancestralidade na criação de imagens sensíveis e de cuidado. As representações
desviam do regime estruturante de visualidades do cinema clássico que, majoritariamente,
reproduz estereótipos e alegorias sobre os corpos negros, sobretudo, as mulheres. Considerando
que a indústria cinematográfica ocidental tende a retratar figuras negras de modo estigmatizado,
visto a herança colonial, o movimento contrapositivo da nova geração de cineastas brasileiros
questiona as normas canônicas, propondo outra leitura sobre a comunidade negra suburbana. A presença de Grace Passô potencializa esse deslocamento narrativo e imagético, visto que, trata-
se de uma mulher, negra e gorda assumindo os papéis centrais em filmes de gêneros marcados
pelo protagonismo da branquitude acrítica. O corpo em cena tensiona o imaginário social,
habituado a ver, predominantemente, mulheres brancas e magras em posição de destaque. Passô
mobiliza as discussões em torno do afeto, desejo e autodeterminação da mulher negra,
confrontando o sistema de exclusão e assujeitamento que opera em frente e por trás das câmeras.
Neste sentido, o estudo usa a abordagem qualitativa, com finalidade explicativa, e método de
análise fílmica para compreender de que maneira a escrevivência de Evaristo (1996) e corpo-
tela de Martins (2021) perpassam o trabalho da atriz nas obras supracitadas. Para a elaboração da pesquisa, constrói-se, inicialmente, um panorama histórico sobre o surgimento do cinema
negro no Brasil, com ênfase para as imagens coloniais e percursos das principais atrizes negras
deste período, a fim de compreender o início do embate imagético entre centros de poder e
grupos minorizados. Aprofunda-se a temática com imagens afetivas do cinema negro brasileiro
que propõem um olhar humanizado sobre as comunidades negras periféricas. A dissertação
utiliza como aporte teórico as obras de Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez, Conceição Evaristo,
Leda Maria Martins, bell hooks, Janaína Oliveira, Edileuza Souza, Shohat & Stam e Bordwell.
Por último, aplica-se os conceitos opositivos para entender de que maneira a escrevivência e
corpo-tela despontam no corpo, narrativa, laços afetivos e cenários nas obras Temporada (2018)
e O dia que te conheci (2023). Como resultados, a análise aponta que Grace Passô articula os
elementos acima referidos na criação de imagens desviantes que contornam a lógica de
funcionamento do cinema clássico. Em cena, Passô traz uma representação multifacetada e
potente da mulher negra por meio do afeto e da subjetividade.