A PSICOLOGIZAÇÃO E PATOLOGIZAÇÃO DA VIDA NA CONTEMPORANEIDADE: ANÁLISE DOS DISCURSOS DE PROFISSIONAIS PSIS SOB A LÓGICA NEOLIBERAL
Neoliberalismo; Sofrimento psíquico; Patologização da vida; Discursos psi; Redes sociais.
Este trabalho investiga os modos pelos quais o sofrimento psíquico tem sido compreendido, nomeado e tratado na contemporaneidade, a partir da articulação entre a racionalidade neoliberal, a expansão dos discursos psi e a crescente patologização da vida cotidiana. Parte-se da hipótese de que o neoliberalismo, para além de um modelo econômico, opera como uma racionalidade governamental que atravessa os campos social, cultural e subjetivo, produzindo formas específicas de subjetivação orientadas pelos ideais de desempenho, adaptação e positividade. Nesse contexto, afetos como tristeza, angústia, cansaço e sofrimento passam a ser percebidos como disfuncionais, frequentemente traduzidos em categorias diagnósticas e submetidos à lógica da medicalização. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, de base teórico-analítica, fundamentada na Análise do Discurso de orientação foucaultiana. O campo empírico consiste na análise de discursos veiculados por profissionais da área psi (psicólogos, psicanalistas e psiquiatras) em ambientes digitais, especialmente na rede social Instagram, compreendida como um dispositivo contemporâneo de produção e circulação de saberes. Busca-se examinar como esses discursos contribuem para a psicologização da vida cotidiana, a individualização do sofrimento e sua despolitização, reforçando práticas de normalização e gestão subjetiva alinhadas à racionalidade neoliberal. O referencial teórico articula contribuições de autores como Freud, Dardot e Laval, Byung-Chul Han, Christian Dunker, Vladimir Safatle e Mariana Furtado, permitindo situar historicamente as transformações na relação com o sofrimento, bem como analisar o papel dos manuais diagnósticos, especialmente o DSM, na ampliação das categorias de transtornos mentais. Ao problematizar a naturalização da patologização do mal-estar, o trabalho busca contribuir para uma leitura crítica das práticas psicológicas contemporâneas, recolocando o sofrimento em sua dimensão histórica, social, política e subjetiva.