ENTRE DOR E SILÊNCIO: A CONSTITUIÇÃO DISCURSIVA DA SUBJETIVIDADE FEMININA EM O PESO DO PÁSSARO MORTO, DE ALINE BEI
Literatura feminina; Análise do Discurso foucaultiana; subjetividade feminina; violência de gênero; Aline Bei.
Esta pesquisa analisa os modos pelos quais se produzem sentidos sobre o feminino na obra O peso do pássaro morto, de Aline Bei, a partir da Análise do Discurso de vertente foucaultiana. Inserida no contexto da literatura brasileira contemporânea de autoria feminina, a obra mobiliza questões relacionadas à violência de gênero, maternidade, abandono, sofrimento e subjetividade feminina, tensionando discursos historicamente estabilizados sobre o corpo, os afetos e o lugar social da mulher. A pesquisa parte da compreensão de que a literatura constitui uma prática discursiva atravessada por relações de saber-poder, capaz de elaborar formas de inteligibilidade sobre a experiência social e subjetiva. Diante disso, o estudo busca compreender de que maneira os discursos presentes na narrativa, especialmente aqueles relacionados à violência, à dor e aos processos de rememoração, participam da constituição da subjetividade da protagonista. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter descritivo-analítico, fundamentada nos pressupostos arqueológicos e genealógicos do pensamento de Michel Foucault, mobilizando conceitos como discurso, enunciado, formação discursiva, saber-poder e subjetivação. A análise considera tanto a materialidade discursiva da obra quanto os silêncios, fragmentações e lacunas que atravessam a narrativa. Os resultados parciais indicam que a obra de Aline Bei desloca representações idealizadas da experiência feminina, evidenciando como discursos normativos sobre maternidade, cuidado, violência e sofrimento têm efeitos na constituição das subjetividades femininas. Além disso, a narrativa revela fissuras nos regimes de verdade que historicamente associam o feminino à passividade, ao silêncio e à realização afetiva plena. Conclui-se, ainda que de forma provisória, que O peso do pássaro morto configura-se como espaço privilegiado de produção e disputa de sentidos sobre o feminino, permitindo discutir a literatura como campo de problematização das relações entre discurso, poder e subjetividade.