"PERMITA QUE EU FALE, NÃO AS MINHAS CICATRIZES”: ORALITURAS DE
INFÂNCIAS LGBTQIAPN+ NEGRAS DE SUJEITOS DE MOSSORÓ/RN
Infâncias LGBTQIAPN+ negras; Oralitura; Memória; Psicanálise; Interseccionalidade.
Esta dissertação investiga quais lembranças de infância de pessoas LGBTQIAPN+ negras do interior do Rio Grande do Norte reverberam em seus percursos de vida e quais oralituras se tornam possíveis a partir dessas experiências. Parte-se da compreensão de que a memória não constitui um arquivo fixo do passado, mas um processo de elaboração produzido no presente, atravessado pelo corpo, pela linguagem, pelos afetos e pelas disputas em torno do direito de narrar a própria história. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, construída a partir de entrevistas semiestruturadas realizadas com quatro pessoas participantes, identificadas pelos pseudônimos Òsum, Ângela, Rocha e Vento. A aproximação com as pessoas participantes ocorreu por meio da técnica de amostragem em cadeia, também denominada bola de neve. As narrativas foram analisadas a partir da noção de oralitura, formulada por Leda Maria Martins, em diálogo com a psicanálise e com produções teóricas sobre raça, gênero, sexualidade, infância, memória e interseccionalidade. A análise foi organizada inicialmente a partir da singularidade de cada pessoa brincante, acompanhando as cenas, os afetos, as interrupções e as invenções que compõem suas histórias. Os resultados demonstram que essas infâncias foram atravessadas por racismo, LGBTfobia, violência urbana, controle religioso, silenciamento e tentativas de correção. Entretanto, não podem ser reduzidas à violência. O afeto, a brincadeira, a música, o movimento, o estudo e a arte também constituíram tecnologias de sustentação e invenção. Conclui-se que as oralituras produzem um saber que tensiona narrativas centradas exclusivamente na dor e reivindica a memória como território de autoria.